L’Inconnue de la Seine

L’Inconnue de la Seine

Em 2010, socorristas, profissionais de saúde e alguns médicos obstinados aguardavam ansiosos as novas diretrizes para Ressucitação Cárdio-Respiratória (RCP) da American Heart Association (AHA). E eu estava entre eles, e já faz muito tempo.

Meu primeiro contato com RCP foi na saudosa Brookline High School, na grande Boston, onde em 1988, aos 16 anos, aprendi as manobras idealizadas por Peter Safar. No mínimo excitante (como diriam os que falam inglês), poder trazer alguém da morte certa com manobras simples e poucos recursos.

Não sei se por isso, mas a RCP sempre me fascinou durante a faculdade e toda residência, principalmente nos caóticos estágios de emergência, onde eu era “rato de parada”, independente de qualquer obrigação de estar ali. Aliás, acho que sou viciado em salvar, o que também me traz aversão à “medicina de supérfluos”.

Vi de tudo. Do pior e do pior ainda, do bizarro (adrenalina intracardíaca sendo uma delas, o que só deu certo em Pulp Fiction), e infelizmente do descaso.

Mas também vi, felizmente, a luta incansável e por vezes desesperada em trazer de volta a vida.

E o melhor que pude testemunhar foi a evolução, ao longo de duas décadas, das manobras, do manejo das drogas e da desfibrilação. Ressucitar passou a ser mais corriqueiro, mas gratificante e, consequentemente, mais viciante. Pena que vícios não pagam as contas…

Apenas recentemente descobri uma história triste e romântica por trás do desenvolvimento do manequim Resusci Anne, da Laerdal.

Em 1880, o corpo de uma jovem, vítima de afogamento, foi resgatado do Rio Sena em Paris. O corpo permaneceu sem ser reclamado e foi enterrado como indigente. Um assitente funerário, tomado por sua beleza, fez uma máscara mortuária, para permitir identificação futura.

Cópias do rosto da jovem, que impressionava por seu sorriso delicado, foram encomendadas à época por toda Paris, sendo nomeado “a desconhecida do Sena”. Histórias de um romance não-correspondido percorreram toda europa junto com as cópias de sua face.

Esse rosto, e seu sorriso, foi o escolhido para atrair milhares e milhares de socorristas por todo o mundo, deixando o treinamento em RCP mais motivante. Acabou se tornando a face mais beijada do mundo.

E eu a beijo desde os 16 anos…

http://www.laerdal.co.uk/doc/10929003/History.html

http://lildbi.bireme.br/lildbi/docsonline/lilacs/20090700/655_07_historia_RBCM_v7_n3.pdf

http://circ.ahajournals.org/content/vol122/18_suppl_3/


Dr. André Gusmão

Cirurgião Geral, do Aparelho Digestivo e Transplantador Hepatico
Membro Orientador da LAEME

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